Jerônimo Lima – O Intelectual Porém Idiota (IPI)

Jerônimo Lima
O Intelectual Porém Idiota (IPI)
Em seu livro “Arriscando a própria pele: assimetrias ocultas no cotidiano”, Nassim Nicholas Taleb apresenta uma crítica ferina ao que ele batiza de “Intelectual Porém Idiota” (IPI), pessoas aparentemente com boa formação acadêmica que “não arriscam a própria pele”, ou seja, todas aquelas que não colocam sua segurança, credibilidade e reputação em jogo para atender aspectos importantes da sua vida. Tem a ver com ter algo a perder e não querer correr riscos.
Particularmente, estou numa fase de minha vida sem paciência com esse tipo de gente, uma vez que eu mesmo me arrisco o tempo todo. Eu me refiro a profissionais de diversas áreas (empresários e executivos, líderes de entidades de classe, médicos, jornalistas, consultores, coaches, gestores e professores universitários, por exemplo) que se consideram especialistas por terem alguma educação universitária pretensamente de elite, sempre impelidos por rótulos e jargões da sua área de atuação, dizendo ao resto de nós o que fazer, o que comer, o que e como falar, o que escrever, como pensar… Mas não fazem nada a respeito para eles mesmos, com medo de se expor.
O problema é o caolho seguindo o cego: esses autonomeados membros da intelligentsia não conseguem encontrar um macaco numa Ilha dos Macacos, o que significa que não são inteligentes o suficiente para definir inteligência. Portanto, caem em mesmice. No meio acadêmico, sua principal habilidade é fazer discursos escritos por pessoas como eles e escrever artigos lidos por pessoas como eles (e, pior ainda, ainda tem alguns que assinam como coautores em artigos escritos por alunos pesquisadores que, pela pressão do “politicamente correto”, colocam os nomes deles mesmos sem sequer terem lido o texto).
Alguns de nós têm sido cegos para esse tipo de incompetência em série. Mas com estudos de psicologia sendo reproduzidos em menos de 40% do tempo, recomendações alimentares mudando depois de trinta anos com fobia de gorduras, mídia interesseira pregando fake news, a macroeconomia e a economia financeira cientificamente piores que a astrologia (pode-se entender melhor sobre isso lendo “Você não é tão esperto quanto pensa: 48 maneiras de se autoiludir”, de David McGraney, e “O andar do bêbado: como o acaso determina nossas vidas”, de Leonard Mlodinow), políticos corruptos sendo reconduzidos ao poder graças à compra de votos de pessoas humildes, testes farmacêuticos sendo replicados na melhor das hipóteses apenas um terço do tempo necessário, temos pleno direito de confiar em nossos próprios instintos ancestrais e dar ouvidos às nossas avós (no meu caso às minhas tias) ou a Montaigne, que têm histórico melhor do que essas pessoas acomodadas que criam cada vez mais desigualdades.
Há muitos anos li o artigo de Rubem Alves intitulado “O prazer de ler: sobre leitura e burrice”, publicado no livro “Entre a ciência e a sapiência: o dilema da educação”. Concordo com ele que, quando nos concentramos apenas naquilo que os outros dizem ou escrevem, abrimos mão de nossa própria visão de mundo, juízo de valor e pensamento crítico mais aguçado. Claro que entendo que se alguém compartilha algo de outrem, de certa forma também está expressando uma opinião, mas isso é pouco do ponto de vista do debate, da geração de novas ideias, do compartilhamento de conhecimento e da formação de pontos de vista alternativos. Eu prefiro saber a opinião pessoal daqueles com quem convivo sobre a vida e o mundo que nos cercam, como uma forma de me precaver dos IPIs que estão ao meu redor, pensando e fazendo mais por mim mesmo, sem esperar nada deles.
De fato, pode-se ver que esses acadêmicos-burocratas que se sentem no direito de administrar nossa vida não são nem sequer rigorosos, seja na desatualização dos conteúdos que ministram em sala de aula, nas estatísticas médicas falseadas, no projeto de cursos universitários pirateados, na formulação de estratégias empresariais sem inovação, na elaboração de políticas públicas descoladas da realidade da população. Eles não conseguem distinguir a ciência do cientificismo. A bem da verdade, aos olhos deles o cientificismo parece mais científico que a própria ciência. Nas universidades, por exemplo, tenho visto que boa parte dos trabalhos de conclusão de cursos de MBAs só é aprovada pela incompreensão da teoria da probabilidade e da não observância do uso cosmético de modelos matemáticos de primeira ordem. A propósito, uma teoria de primeira ordem tem como base uma linguagem de primeira ordem, melhor dizendo, um conjunto específico de fórmulas bem-formadas chamadas de axiomas. De acordo com a teoria dos modelos matemáticos, uma teoria é um conjunto de axiomas não lógicos que são satisfeitos por testes de validação. Nessa direção, os IPIs são também propensos a confundir o conjunto pela agregação linear de seus componentes, isso é, acham que a compreensão de indivíduos e casos permite entender multidões e mercados, ou que a compreensão de formigas individualmente permite entender o formigueiro.
Pensando nisso lembrei-me da crítica do semiólogo Umberto Eco: “As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel”. Esse tipo de comportamento é extremamente bem retratado no livro “Como a picaretagem conquistou o mundo: equívocos da modernidade”, de Francis Wheen. Publicado em 2007, o livro ainda é uma leitura atual sobre a prática de pessoas desinformadas e despreparadas comentarem as ideias e fazerem fofoca sobre a vida dos outros, sem o mínimo conhecimento de causa, demonstrando, assim, uma cultura de verniz que não passa da primeira página de pesquisa no Google.
Na esteira desse livro, vieram outros, todos elucidativos sobre o tema em questão: “Por que as pessoas de negócios falam como idiotas: um guia à embromação”, de Brian Fugere, Chelsea Hardaway e Jon Warshawsky; “Maus conselhos, uma armadilha gerencial: como distinguir os conselhos eficazes daqueles que não têm valor”, de Chris Argyris; “Pura picaretagem: como livros de esoterismo e autoajuda distorcem a ciência para te enganar”, de Daniel Bezerra e Carlos Orsi (brasileiros); “Imposturas intelectuais: o abuso da ciência pelos filósofos pós-modernos”, de Jean Bricmont e Alan Sokal; “O culto do amador: como blogs, MySpace, YouTube e a pirataria digital estão destruindo nossa economia, cultura e valores”, de Andrew Keen; e o que mais gosto, “Think: por que não tomar decisões num piscar de olhos”, de Michael Legault.
Como já dito, o IPI provoca desigualdades. A primeira delas é que as pessoas toleram, por exemplo, o entendimento de um indivíduo comparado ao de outros considerados gênios ou herois, como Einstein, Michelângelo, Jung, Bertrand Russell, Newton ou Aquiles. Não é difícil reconhecer a superioridade deles. Isso se aplica a alguns empresários, artistas, militares, Bob Dylan, Platão, o imperador romano Marco Aurélio. Em resumo: aqueles de quem alguém pode naturalmente ser um fã. Podemos gostar de imitá-los, podemos aspirar a ser como eles, mas não nos ressentimos quando não conseguimos isso. A segunda desigualdade que as pessoas consideram intolerável é porque o IPI parece ser apenas uma pessoa como nós, exceto pelo fato de que ele vem manipulando o sistema e se metendo em negócios de rent-seeking, adquirindo privilégios injustificados e, embora ele tenha algo que não nos importamos de ter (um cargo em alguma empresa, um carro importado ou uma namorada bem mais jovem), não somos capaz de nos tornarmos seu fã. Pelo contrário, nos ofendemos com o falso sucesso deles, o que desencadeia certa amargura, pois fazem com que nos sintamos inferiores. A título de esclarecimento, na economia, rent-seeking é a tentativa de obter renda econômica pela manipulação do ambiente social ou político no qual as atividades econômicas ocorrem, em vez de agregar valor aos produtos. Um exemplo de rent-seeking era a limitação do acesso a cargos qualificados imposta pelas guildas medievais. Muitos estudos atuais sobre rent-seeking focam na captura do regulador, ou seja, na exploração pelo agente público dos privilégios decorrentes da ação governamental em detrimento da livre concorrência. O próprio termo deriva, no entanto, da antiga prática de apropriar uma porção da produção ao ganhar a propriedade ou controle da terra.
Os IPIs são um produto da pós-modernidade, por isso têm proliferado desde a década de 1980 para alcançar hoje um supremo local (na Matemática, o conceito de supremo de um conjunto é o elemento cujo valor é maior do que qualquer outro elemento do mesmo conjunto), a ponto de estarmos cercados por pessoas que comodamente não se arriscam em nada. Parecem onipresentes em nossa vida, mas ainda são uma pequena minoria e raramente são vistos fora de empresas medíocres, entidades de classe sem propósito, agências de notícias irresponsáveis, institutos de pesquisas fajutos, departamentos universitários de ciências sociais. Felizmente a maioria das pessoas tem empregos de verdade e não existem muitas vagas para IPIs, o que explica como eles podem ser tão influentes a despeito de seus contingentes pouco numerosos.
O IPI patologiza outras pessoas por fazerem coisas que ele não entende, sem nunca perceber que é o entendimento dele que talvez seja limitado. A seu ver as pessoas deveriam agir de acordo com os melhores interesses deles, particularmente se são “puristas, separatistas, lineares, superficiais ou céticos” (eles adoram esses adjetivos usados pejorativamente). Mas os IPIs são duramente criticados por isso em obras como a de Seth Stephenz-Davidowitz, em “Todo mundo mente: o que a internet e os dados dizem sobre quem realmente somos”, Ion Pacepa e Ronald Rychlak, em “Desinformação: ex-chefe de espionagem revela estratégias secretas para solapar a liberdade, atacar a religião e promover o terrorismo”, e Christian Rudder em “Dataclisma: quem somos quando achamos que ninguém está vendo”. Quando os plebeus fazem algo que faz sentido para si mesmos, mas não para ele, o IPI usa o termo “inculto” ou “ignorante”. O que chamamos de “participação no processo político” ele define com duas designações distintas: “democracia”, quando se encaixa na lógica do IPI, e “fascista”, quando os plebeus se atrevem a votar de uma maneira que contradiz as preferências do IPI. Enquanto as pessoas ricas acreditam em um real de imposto, um voto; os mais humanistas em um homem, um voto; a Odebrecht em um lobista, um voto; o IPI acredita em um diploma de doutorado (mesmo que numa universidade mediana), um voto. Eles são o que Nietzsche chamou de “filisteus da cultura”. Deve-se ter cuidado com as pessoas ligeiramente eruditas que julgam ser eruditas, assim como o barbeiro que decide realizar uma cirurgia cerebral. O IPI também não consegue detectar sofismas e o raciocínio sofístico. A intelligentsia sente-se no direito de lidar com os plebeus como um constructo de pesquisa: uma construção puramente mental, ago inteiramente teórico, uma referência de livros didáticos que eles mesmos criaram. Assim eles se convencem de que sabem o que é melhor para todo mundo.
O IPI acompanha veículos de imprensa pelos quais os filisteus possam aprender a fingir ter uma conversa séria sobre evolução, tecnologia, neuro-qualquer-coisa, vieses cognitivos e física quântica. Ele nunca amaldiçoa as redes sociais. Fala de “igualdade de gênero”, “igualdade de raças” e “igualdade econômica”, mas nunca sai para beber com um aluno pobre bolsista desesperado para fazer um TCC que lhe valha um emprego pelo valor de sua contribuição para o PIB do país. O IPI adora assistir palestras do TED pelo YouTube, mas tem que ser TEDx, pois ele “tem preguiça de ver/ouvir em inglês e só olha as que abordam seus assuntos preferidos”. Ele não votou em algum candidato por achar que ele parecia elegível ou por causa de algum raciocínio circular, mas considera qualquer um que não o tenha feito um doente mental.
O IPI compra e guarda os livros que recomendo em meu post mensal no Facebook, mas nunca os lê. Confunde ausência de evidências com evidência de ausência (ver “A verdade dos fatos: como reconhecer e evitar o perigo das meias verdades”, de Jeffrey Pfeffer e Robert Sutton). Acredita que os organismos geneticamente modificados são “ciência”, que a “tecnologia” deles está na mesma classe de risco que a reprodução convencional. Normalmente, o IPI entende bem a lógica de primeira ordem, mas não os efeitos da segunda ordem (ou superior), o que o torna incompetente em analisar problemas complexos.
O IPI está errado, historicamente, acerca do liberalismo econômico, alimentos transgênicos, cidades inteligentes, transformação digital, economia baseada em ativos intangíveis, dietas de baixo consumo de carboidratos, ginástica e musculação, behaviorismo, gorduras trans, teorias administrativas e competitividade empresarial, regressão linear, análise preditiva, xarope de milho rico em frutose, gaussianismo, sistemas político-econômicos, R versus Excel, Python versus mimimi, modelos dinâmicos estocásticos de equilíbrio, pesquisa (realmente) científica, maratonas, drones, genes egoístas, modelos de previsão eleitoral, big data, sinal e ruído, tomada de decisão multicritério… Mas ainda está convencido que sua opinião é a correta, sempre. E, é claro, jamais se reconhece como um IPI.
O IPI me leva a crer que a arte de pensar de forma perspicaz, incisiva e inteligente está se esvaindo, limitando-se, cada vez mais, ao domínio de poucos especialistas. A tendência é preocupante e gera a seguinte pergunta: será que estamos perdendo a capacidade de pensar? Defino aqui “pensar” como o uso do conhecimento e do raciocínio para resolver problemas, planejar e produzir soluções favoráveis para melhorar a vida. Infelizmente, acredito que sim.
Como consultor e professor universitário percebo claramente que as faculdades intelectuais estão ficando piores a cada ano, sendo que a última turma de alunos é sempre a pior de todas. O pensamento crítico é uma habilidade cognitiva que permite a uma pessoa investigar logicamente uma situação, problema, questão ou fenômeno, de forma a poder fazer um julgamento ou tomar uma decisão. O colapso dessa habilidade pode ser sistemático e histórico, e até inevitável. O reflexo disso é que, com raras exceções, na universidade, os alunos (e muitos professores) de hoje carecem de habilidades para o pensamento crítico necessário para um aprendizado mais elevado.
Se a redução nas habilidades de raciocínio fosse limitada a estudantes universitários desmotivados ou desinteressados, determinados a desperdiçar tempo e dinheiro – seu mesmo, dos pais, das empresas onde trabalham -, provavelmente poderíamos dar de ombros, acreditando inocentemente que padrões acadêmicos mais rigorosos acabariam por eliminar os inúteis. Mas não parece ser essa a postura dos próprios dirigentes universitários, segundo os quais, raciocínio medíocre e inépcia crescente, de acordo com a atual visão mercantilista da academia, serão cortados pela raiz, reprimidos em tempo hábil no campus ou depurados pelo mercado de trabalho. É obvio, no entanto, que esse não é o caso. Muitos desses estudantes são empurrados pelo pagamento de suas mensalidades e aprovados mesmo sem terem mérito por causa do politicamente correto que considera bullying “reprovar o cliente”. Esses alunos acabam levando seu conhecimento limitado e habilidades de raciocínio deficientes para sua área profissional, formando a geração seguinte de professores e administradores de empresas, isso só para falar nas áreas em que atuo.
A situação chegou a um ponto tal de gravidade que o espaço que nos é concedido para refletir, entreter-nos e questionar sobre os mistérios do dia a dia encolheu. Muitas pessoas recorrem ao pagamento de terceiros para pensarem por elas, às vezes a mesmo a IPIs. Por falta de hábito de treinar a mente pela observação neutra e cuidadosa proporcionado pelo raciocínio crítico aplicado, os julgamentos baseados em intuição e emoções momentâneas prevalecem. Essa distorção ganhou legitimidade graças aos fundamentos lançados por gerações de ativistas, geralmente artistas, professores e consultores autointitulados pós-modernistas que procuram, diligentemente, desconstruir todas e cada uma das certezas da natureza e da sociedade, tornando-as um conjunto subjacente de falsas suposições culturais. Usando-se do mesmo artifício, procuram disseminar dúvidas sobre o próprio método do raciocínio crítico, afirmando que o pensamento racional reducionista é machista e repressivo por basear-se em suposições que já se tornaram compatíveis com os valores e opiniões de uma estrutura de poder anacrônica. Assim, o status de ideias científicas, que têm origem no ceticismo lógico e no pensamento racional, sofreu um retrocesso, enquanto o de uma série de opiniões e tendências baseadas em crenças e cultura de verniz avançou.
O IPI se associa a um clube ou entidade de classe para conseguir privilégios de viagem; se ele é um cientista social, usa estatísticas sem saber como elas são obtidas (tem preguiça mental de estudar matemática mais a fundo); frequenta cervejarias artesanais só para ficar na moda; adora tirar selfies para mostrar que está (pretensamente) fazendo alguma coisa útil; antes acreditava que a gordura era prejudicial e agora mudou completamente de ideia (em ambos os casos a informação veio da mesma fonte); toma estatinas porque seu médico lhe disse para fazer isso; é incapaz de entender a ergodicidade e, quando lhe explicam, logo depois esquece; não usa o linguajar correto nem mesmo para falar sobre negócios; estuda gramática e faz oficina de redação somente quando precisa aprender um novo idioma às pressas para uma viagem ao exterior; tem um amigo que é um influente amigo do seu pai; nunca leu Machado de Assis, Platão, Fritjof Capra, Peter Drucker, Roman Krznaric, David Brooks e James Gleick; não sabe a diferença entre Hécate e Hécuba (nunca leu sobre mitologia grega, ou, em dialeto do meu filho, “não sabe a diferença entre merda e bosta” ou “não sabe porra nenhuma”); tem aversão a algoritmos; não sabe que não existe diferença entre “pseudointelectual” e “intelectual” quando não se corre riscos; menciona “quântico” em muitas conversas que nada têm a ver com Física, pensando que assim se exibe intelectualmente. O IPI gosta de usar clichês e palavras da moda da administração, filosofia, ciência e tecnologia quando discute fenômenos não relacionados ao assunto; ele é dois ou três níveis teórico demais para resolver qualquer problema complexo.
Não sou pretensioso a ponto de pensar que esta minha reflexão pode mudar pensamentos e hábitos dessas pessoas, pois, infelizmente, isso já se tornou uma disfunção intelectual institucionalizada. Mas é preciso ter cuidado, pois há uma relação direta entre o modo como pensamos e a sociedade que formamos. Na minha opinião, a despersonalização das relações e a exploração da liberdade e do irrealismo podem esvaziar de sentido os valores centrais de uma vida: identidade social, capacidade de se relacionar de modo gentil, oportunidades para expressão individual sincera, com comunicação não agressiva e compartilhamento de experiências. Hoje em dia, todos nós somos capazes de satisfazer a maior parte de nossos instintos mais primitivos, de acordo com a nossa vontade (dentro do reino digital, pelo menos), e a maior parte de nós o fará, em algum momento. Porém, ao mesmo tempo, também precisamos ser mais do que meros objetos uns para os outros; precisamos encontrar espaços (virtuais e reais) que nos aceitem “em pessoa”, como parte de uma raça da qual se espera tratamento igualitário, civilidade, solidariedade, fraternidade, lealdade com quem nos ajuda.
O IPI é um mal implacável. O que devemos combater, propriamente, é a espécie de narcisismo que enxerga todas as relações, sejam elas próximas ou anônimas, dentro de uma empresa, sala de aula ou virtualmente, como algo que não serve para nada além da satisfação dos próprios desejos. Isso é, acima de tudo, uma questão sobre a força e a integridade de nossas comunidades, e sobre a capacidade que elas têm de associar um policiamento eficaz com o respeito por valores comuns: sobre a capacidade de autorregulação, sem deixar de recorrer à autoridade quando necessário, arrastando de nós a mediocridade das vidas vazias de quem nunca se expõe por ninguém.
O IPI sabe, em qualquer momento no decurso do tempo, o que suas palavras ou ações estão (ou não) fazendo pelo seu capital social e sua reputação, mas não se importam, pois não arriscam a própria pele, ou, o que é pior, arriscam a pele dos outros.
Não há dúvida de que essas são situações complexas, mas, quando comparamos os fatos, a causa principal para esse problema pode ser encontrada, em última análise, no raciocínio turvo, preconceituoso, inexato, institucionalizado e equivocado, e na atitude indiferente ou raivosa daqueles que não usam o conhecimento e sua capacidade para satisfazer e melhorar nossa existência diária.

Vision!

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